IA no prontuário psicológico: como usar sem abrir mão do sigilo
O que pode ir para uma IA, como tirar nomes e documentos antes, por que cada frase precisa de fonte e quem continua responsável pelo registro.
Por Equipe PSY Task Atualizado em 5 min de leitura
O que o CFP já disse sobre IA
Em 19 de dezembro de 2025, o Conselho Federal de Psicologia lançou duas cartilhas: “Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável”, para a categoria, e “Chatbots, Inteligência Artificial e sua Saúde Mental”, para a população. O objetivo declarado do guia profissional é ajudar o psicólogo a tomar decisões informadas, proteger quem usa os serviços e manter a prática alinhada ao Código de Ética e às normas vigentes.
Vale ler o guia inteiro, no site do CFP. O que segue aqui não substitui o guia: são critérios práticos, derivados do sigilo (art. 9º do Código de Ética) e da LGPD, para avaliar qualquer ferramenta de IA antes de usá-la com dados de pacientes.
O problema de colar a evolução num chatbot
É tentador: copiar as últimas sessões e pedir um resumo. Mas, numa ferramenta de uso geral, você normalmente não sabe:
- onde o texto fica guardado e por quanto tempo;
- se ele pode ser usado para treinar o modelo, o que é comum em planos gratuitos;
- quem, do lado do fornecedor, pode ler aquele conteúdo.
Além disso, o texto vai com o nome do paciente, dos familiares, do local de trabalho. Para a LGPD, informação de saúde é dado pessoal sensível, e você, ou a clínica, responde pelo que fizer com ela.
Quatro condições para usar IA com o prontuário
1. Só o que você já pode ver, sem identificar ninguém
A IA não deveria enxergar mais do que o próprio psicólogo enxerga. E, antes de qualquer texto sair do sistema, nomes do paciente e de pessoas citadas, CPFs, e-mails e telefones devem ser trocados por marcadores como [paciente] e [pessoa]. A IA não precisa saber quem é a Marina para resumir que o sono melhorou.
Atenção: dado com marcadores ainda é dado pessoal, porque alguém consegue reverter a troca. Por isso a condição 2 continua necessária.
2. Um fornecedor que não treina com o seu conteúdo
O contrato com o provedor de IA precisa garantir que o conteúdo enviado não é usado para treinar modelos. Pergunte isso ao fornecedor do seu sistema, por escrito, e confira na política de privacidade quem é o operador dos dados.
3. Cada frase com fonte
Modelos de linguagem podem escrever frases plausíveis e falsas. Num resumo clínico, isso é grave. A defesa é exigir que cada afirmação traga a entrada do prontuário de onde saiu, com data, para que você confira em um clique. Frase sem fonte não deveria aparecer.
Pelo mesmo motivo, a IA não deveria diagnosticar nem classificar risco. Quando o prontuário registra uma menção de risco, o mais seguro é a ferramenta citar o trecho, com a data, e deixar a avaliação com você.
4. Rascunho até você revisar
O que a IA produz é material de apoio, não registro. Só vira parte do prontuário depois que você lê, corrige e finaliza, e o registro deve indicar que foi elaborado com apoio de IA. A autoria e a responsabilidade técnica continuam suas.
Como a SIA, a IA do PSY Task, segue essas condições
A SIA (Sistema Inteligente de Apoio) foi desenhada a partir dessas quatro condições. A demonstração do topo mostra o caminho:
- Vem desligada. A clínica decide se liga, e cada psicólogo usa no prontuário dos próprios pacientes.
- Lê só entradas finalizadas que o psicólogo já pode ver, com nomes e documentos trocados por marcadores antes de sair do sistema.
- O provedor é o Google, em plano pago, no qual o conteúdo não é usado para treinar modelos. Isso está na nossa política de privacidade.
- Cada frase cita a entrada de origem. Tocar na data destaca o registro no prontuário.
- Não diagnostica nem classifica risco. Menções de risco aparecem como citação, com data.
- É rascunho. O resumo só entra no prontuário se o psicólogo revisar e finalizar, e a entrada fica marcada como elaborada com apoio da SIA.
Perguntas para fazer a qualquer fornecedor
- Quem é o provedor do modelo e em que plano? O conteúdo é usado para treinamento?
- O que exatamente sai do sistema? Nomes e documentos são retirados antes?
- A IA lê só o que eu posso ver, ou o prontuário inteiro da clínica?
- Cada frase traz a fonte? Como eu confiro?
- O texto gerado entra direto no prontuário ou fica como rascunho?
- A clínica pode desligar a IA? E o uso fica registrado?
Se a resposta para alguma dessas perguntas for vaga, trate a ferramenta como um chatbot comum: útil para estudar e escrever textos gerais, nunca para dados de pacientes.
E o paciente?
Transparência ajuda a relação terapêutica. Uma boa prática é contar, no contrato terapêutico ou numa conversa no início do acompanhamento, quais ferramentas digitais você usa para organizar os registros e como protege as informações. Se o paciente tiver dúvidas, a explicação das quatro condições acima costuma ser suficiente.
Fontes
- CFP lança cartilhas sobre Inteligência Artificial na Psicologia (19/12/2025)
- Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005)
- Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018)
Este guia é informativo e foi conferido nas fontes acima em 04/11/2026. Ele não substitui a leitura das normas nem a orientação do seu contador ou do seu Conselho Regional de Psicologia.